Por que AI Builders não vão substituir o código
Antonio Paes
Autor verificado
20 fevereiro
Vivemos um momento em que a pressão por entregar rápido virou norma. A popularização de ferramentas low-code e no-code, copilots, prototipadores visuais e fluxos prontos abriu um novo capítulo no desenvolvimento de software: um onde praticamente qualquer pessoa pode colocar uma ideia no ar em poucos cliques.
Esse movimento deu origem a um novo estilo de criação conhecido como vibe coding: a prática de construir software de forma empolgada, acelerada e, muitas vezes, despretensiosa. O conceito gira em torno de ferramentas que minimizam barreiras técnicas e aceleram entregas, como Replit, Framer, Glide, Softr e copilots como GitHub Copilot e Cursor.
Mas na Zallpy, temos uma leitura diferente dessa euforia.
Estamos vendo produtos crescendo como castelos de cartas: bonitos, rápidos, mas instáveis.
Sim, o vibe coding acelera. Em contextos muito específicos – MVPs, POCs, soluções internas – ele pode funcionar como catalisador. Mas o problema começa quando esse ritmo vira regra. Quando um protótipo improvisado vira o produto final. Quando o código provisório vaza para a produção. Aí, o que era agilidade vira herança técnica.
E temos visto um padrão preocupante: profissionais sem bagagem em engenharia são levados a tomar decisões de arquitetura críticas, não por imprudência, mas por uma cultura que romantiza a velocidade e ignora os custos da má construção.
Uma ideia genial, se mal implementada, se torna um problema a médio prazo. Uma arquitetura robusta, sem direção de produto, vira desperdício. O valor real está no encontro entre esses dois mundos.
Por isso, o problema não é o vibe coding em si. O problema é quando essa abordagem acontece sem padrões mínimos de arquitetura, sem testes, sem preocupação com escalabilidade, rastreabilidade, governança ou desacoplamento.
Não é barato desenvolver rápido sem pensar na base. Pelo contrário: essa conta sempre chega. Seja na forma de refatoramentos longos, reescritas dolorosas, bugs que se tornam crises ou stacks que ninguém mais quer encostar.
E mais: o débito técnico impacta diretamente a evolução do produto. Cada nova funcionalidade passa a ser um risco potencial. A confiança se perde. O time trava.
Esse é o ponto central da conversa. A resposta passa por uma mudança de postura e processos, não apenas de ferramenta:
Engenheiros maduros não são apenas codificadores. São guardiões da continuidade. São eles que desenham o alicerce com visão de futuro, sinalizam riscos, limitam o improviso e preparam o terreno para um negócio escalável de verdade.
Tecnologia não é sobre acelerar qualquer coisa. É sobre sustentar o que importa.
Acreditamos que o vibe coding tem seu papel: ele impulsiona ideias, destrava o começo e democratiza a construção de software. Mas ele não substitui engenharia séria.
Projetos que nascem da empolgação precisam, cedo ou tarde, encontrar sustentação técnica. Isso não significa desacelerar a inovação, mas garantir que ela não colapse sob seu próprio peso.
O desafio está em encontrar o ponto de equilíbrio. E isso começa por reconhecer que nem toda entrega rápida é sustentável, e que decisões técnicas continuam sendo decisões de negócio.
Se a sua organização está trilhando esse caminho, vale a pena fazer a pergunta: o quanto da sua velocidade está ancorada em estrutura sólida?