Produtividade em desenvolvimento de software: como medir com IA
Marcelo Scheidt
Autor verificado
3 setembro
Tenho defendido há algum tempo que o principal objetivo da Qualidade de Software é garantir a persistência e a integridade das regras de negócio. Com a ascensão da IA agêntica e dos sistemas agênticos, essa discussão deixou de ser apenas relevante para se tornar uma prioridade estratégica.
À medida que os Large Language Models (LLMs) evoluem de assistentes conversacionais para agentes capazes de executar fluxos completos, tomar decisões e utilizar ferramentas de forma autônoma, surge um desafio fundamental: como assegurar que essas decisões continuem alinhadas às regras e restrições do negócio?
Antes de tudo, é importante compreender a natureza dos LLMs. Por definição, um LLM é um sistema probabilístico. Ele não conhece as regras do seu domínio de negócio da mesma forma que um sistema determinístico tradicional. Em vez disso, estima, com elevada precisão estatística, qual é a próxima palavra ou ação mais provável dentro de um determinado contexto.
Essa característica não representa uma falha. Pelo contrário, é justamente ela que permite a flexibilidade, a criatividade e a adaptabilidade que tornam a Inteligência Artificial Generativa tão valiosa. No entanto, quando delegamos decisões críticas a agentes de IA, também delegamos responsabilidades a um mecanismo que pode gerar respostas plausíveis, mas incorretas.
Na prática, isso significa que um agente pode aprovar um segundo reembolso para o mesmo pedido, direcionar um pagamento ao destinatário errado ou até mesmo criar um status inexistente em um processo operacional, como um hipotético “provavelmente enviado”. São situações que evidenciam a diferença entre produzir uma resposta provável e produzir uma resposta correta segundo as regras de negócio.
É nesse cenário que um conceito clássico ganha nova relevância: as ontologias.
Na definição de Tom Gruber, uma ontologia é uma especificação formal de uma conceitualização compartilhada. Em termos práticos, trata-se da representação estruturada do conhecimento de domínio, incluindo entidades, relacionamentos, propriedades e restrições que definem o que é ou não válido dentro de um sistema.
Exemplos simples ajudam a ilustrar sua importância:
Embora esses conceitos não sejam novos, seu papel dentro da governança de IA muda significativamente. A ontologia deixa de ser apenas documentação para se tornar uma camada ativa de validação e controle.
Em outras palavras, ela funciona como um mecanismo determinístico capaz de verificar continuamente se as decisões produzidas por um agente estão em conformidade com as regras de negócio estabelecidas.
Essa abordagem pode ser entendida como uma forma de meta-qualidade em sistemas agênticos.
A questão deixa de ser apenas “quem testa o agente?” e passa a ser: “como os princípios de qualidade são aplicados ao próprio processo de tomada de decisão do agente em tempo real?”.
Nesse contexto, conceitos tradicionais da área de Qualidade de Software ganham nova importância:
A ontologia atua como uma camada permanente de controle, garantindo que o comportamento probabilístico da IA permaneça dentro de limites definidos pelo domínio de negócio.
Existe ainda uma consequência estratégica que merece atenção.
Se a Inteligência Artificial acelera a geração de código e automatiza decisões cada vez mais complexas, então o código e as próprias decisões deixam de ser os repositórios mais confiáveis das regras de negócio.
A fonte da verdade precisa migrar para artefatos formais, governados, auditáveis e verificáveis.
Nesse cenário, as ontologias surgem como candidatas naturais para desempenhar esse papel. Elas permitem centralizar o conhecimento de domínio, reduzir ambiguidades e criar um mecanismo consistente de validação para agentes de IA, aplicações tradicionais e processos corporativos.
Retomando um dos princípios defendidos por Fred Brooks, as complexidades essenciais de um domínio não desaparecem porque um agente executa o processo.
Elas continuam existindo e precisam estar representadas em algum lugar.
A diferença é que agora temos uma escolha: manter esse conhecimento fragmentado entre prompts, user stories, documentações dispersas e conhecimento tácito das equipes, ou consolidá-lo em uma representação formal que possa ser compreendida, validada e governada ao longo do tempo.
Sem essa formalização, o conhecimento crítico do negócio permanece vulnerável à rotatividade de profissionais, à inconsistência dos processos e às limitações inerentes dos modelos probabilísticos.
Para líderes, gestores de tecnologia e tomadores de decisão, a questão mais relevante talvez não seja quantos agentes de IA conseguem ser colocados em produção neste trimestre, mas sim onde está formalizado o conhecimento de domínio que garantirá que esses agentes permaneçam alinhados às regras de negócio.
Afinal, o investimento necessário para responder a essa pergunta e estabelecer uma base sólida de governança, validação e conformidade é significativamente menor do que o custo de descobrir, já em produção, que ninguém se preocupou em fazê-la.