Não, seu Problema não é “Pressão para Implementar IA”, é Falta de Qualidade

Gabriel Tavares
Gabriel Tavares
Autor verificado Autor verificado
12 março

IA não é processo nem solução, é apenas ferramenta, e, quando a necessidade de IA é expressada, isso está necessariamente ligado a uma dor subjacente que precisa ser tratada: baixa produtividade, muito retrabalho, baixa reputação, churn alto e NPS baixo são exemplos dos problemas reais que, muitas vezes, fazem os stakeholders saírem por aí “exigindo” IA. Não que IA não possa ajudar, “apenas” o problema real é mais embaixo (e geralmente é um problema de Quality Assurance).

Desenvolvimento de software é uma atividade de engenharia, e é preciso engenho e arte; uma das atividades mais complexas deste ofício é mapear a real necessidade do cliente/stakeholder (que, muitas vezes, precisa inclusive de apoio para entender o que ele mesmo quer). Isso vale também para as “dores” ou “problemas” que nós, engenheiros de software, identificamos ao dissecar os requisitos de um potencial novo projeto. Esta atividade investigativa — que guarda uma semelhança importante com um dos pilares de Quality Assurance, a análise de causa-raiz — precisa ser feita sempre. 

Por isso, ao ouvir “precisamos implementar IA”, pergunte: por quê? O que está acontecendo no “mundo real” que fez com que o stakeholder/cliente buscasse a “bala de prata” da inteligência artificial? Pergunte sobre densidades de defeitos, sobre problemas recorrentes em produção, sobre milestones perdidas; questione o stakeholder sobre o dimensionamento de sua equipe de Quality Assurance, sobre o mapeamento de riscos que justifica a cobertura funcional de testes (e que ele provavelmente não tem). Veja se há falta de compliance regulatório, normativo e legal, ou, simplesmente, falta de persistência de regras de negócio. Muito provavelmente é nesses pontos que estará o “verdadeiro” problema.

Não que, para endereçar esses problemas, não possamos contar com o apoio de IA: mas será apenas isso, apoio. Para melhorar taxas de defeitos, pode-se utilizar IA para apoiar em processos de análise de causa-raiz de lotes de defeitos (mas, primeiro, precisamos definir o processo de análise de causa-raiz); para problemas recorrentes em produção, pode-se utilizar IA para apoiar em um processo de roteamento de defeitos com base em severidade (mas, primeiro, precisamos definir o processo de gestão de defeitos); para o dimensionamento de equipes de Quality Assurance, podemos usar IA para inferir, através de dados históricos, o perfil dos engenheiros necessários (mas, primeiro, precisamos definir um processo estruturado de coleta dos dados históricos). A solução é processual e de conhecimento de domínio, e IA pode (ou não) entrar apoiando. 

A “exigência” do uso de IA é sintoma de um problema, não causa. Projetos têm os mesmos desafios processuais que tinham antes de 2022; antigamente a “exigência” era automação de testes (que também nada mais é do que o uso de ferramentas para solucionar/acelerar processos).

O grande desafio é sensibilizar a alta gestão desta necessidade de separar causa e sintoma antes de partir para o uso de uma ferramenta. Isso exige um conhecimento de engenharia de software de ponta a ponta: desde pré-vendas, passando por formatação de propostas, até implementação e gestão de projetos. É preciso firmeza e robustez técnica para não ceder à resposta “fácil” de que a implementação de uma ferramenta de inteligência artificial vai resolver problemas de engenharia.

Gabriel Tavares
Gabriel Tavares
Autor verificadoAutor verificado

Quality Engineering Manager da Zallpy, com mais de 30 anos de experiência em qualidade de software, engenharia de processos, liderança e transformação digital, atuando em grandes corporações e projetos internacionais. Formado pela Poli-USP, com especializações em Qualidade no Desenvolvimento de Software e em Governo Digital/Transformação Digital, possui certificação ISTQB avançada (CTAL-TM), com projetos em arquiteturas de governança, iniciativas premiadas e pesquisas em modelagem de maturidade. Tendo vivência profissional em países como Holanda, Alemanha, Turquia, Estados Unidos e Índia, alia visão estratégica, base conceitual sólida e experiência prática para promover uma visão panorâmica de Quality Assurance, através de melhoria contínua, excelência operacional e impacto real nos processos e produtos de software.

Quality Engineering Manager da Zallpy, com mais de 30 anos de experiência em qualidade de software, engenharia de processos, liderança e transformação digital, atuando em grandes corporações e projetos internacionais. Formado pela Poli-USP, com especializações em Qualidade no Desenvolvimento de Software e em Governo Digital/Transformação Digital, possui certificação ISTQB avançada (CTAL-TM), com projetos em arquiteturas de governança, iniciativas premiadas e pesquisas em modelagem de maturidade. Tendo vivência profissional em países como Holanda, Alemanha, Turquia, Estados Unidos e Índia, alia visão estratégica, base conceitual sólida e experiência prática para promover uma visão panorâmica de Quality Assurance, através de melhoria contínua, excelência operacional e impacto real nos processos e produtos de software.