Cloud não escala times imaturos

Marcelo Sheidt
Marcelo Sheidt
Autor verificado Autor verificado
19 fevereiro

Tem um momento das equipes de desenvolvimento que se repete em várias empresas: alguém finalmente consegue aprovação para a migração pra cloud, fecha contrato, cria conta, escolhe Kubernetes, compra observabilidade, desenha a landing zone e etc… e espera que, por osmose, o time aumente a performance, mas a cloud não vai salvar seu time, ela vai expor ele.

A cloud amplifica o que o seu time já é. Se o time tem boa engenharia, boas práticas e um senso de responsabilidade, ela vai trazer velocidade e controle. Se o time tem buracos de governança, ownership difuso e cultura de observabilidade fraca, ela vai trazer o caos com velocidade, normalmente em dólar.

E eu não estou falando de teoria, mas sim falando do aprendizado que passei e continuo passando em diversas equipes. Alguns problemas end-to-end só aparecem quando você coloca a aplicação no ar de verdade, recebe feedback de cliente de verdade, apaga incêndios de verdade e precisa melhorar para sair da situação.

O ciclo real de maturidade que a cloud não faz por você

O que escala um time não é o catálogo de serviços, é o ciclo completo de entregar, operar, aprender e repetir. Esse ciclo é o que separa o time que só sobe do time que sustenta e evolui produto. É também onde a cloud cobra caro quando você tenta pular etapas.

Começa tranquilo: o deploy passa, a demo impressiona, o ambiente está rodando, o dashboard tem gráfico. Aí vem o primeiro atrito real: latência diferente em produção, comportamento estranho por carga, permissão mal desenhada, custo subindo porque alguém ligou autoscaling como se fosse mágica, ou aquele incidente que ninguém sabe explicar porque não existe rastro confiável. Nessa hora, não adianta o fornecedor, não adianta a ferramenta, não adianta o slide, porquê quem precisa aparecer é o time.

E é aqui que entram os três pilares que mais levo para minhas equipes amadurecerem, se destacarem e realmente entregar valor.

  1. Ownership
    Ownership não é só “esse sistema é do time A”. É ter alguém que acorda com o produto na cabeça e dorme sabendo o que pode quebrar e quando. É realmente ter um backlog que inclui débito técnico e negociar com a área de negócio levando dados, números e fatos. Sem isso, cloud vira uma terra de ninguém: todo mundo faz mudança, mas ninguém realmente entende o que está acontecendo. O resultado é previsível: incidentes viram caça às bruxas e o time aprende menos do que poderia, porque passa mais tempo procurando culpado do que entendendo causa.
  2. Governança
    Governança não é burocracia. É o tipo de estrutura que impede a empresa de se ferir sozinha. Uma landing zone, contas/projetos separados, políticas mínimas de IAM, padrões de rede, logs obrigatórios, chaves e segredos tratados, naming, tagging, custo por centro, e um caminho claro pra pedir exceção quando precisa. Documentos de landing zone existem justamente porque, sem fundação, a adoção vira improviso.
  3. Observabilidade
    Observabilidade não é ter gráfico. É conseguir responder o que aconteceu, por que aconteceu, o impacto de negócio e o que mudar pra não repetir. Aquele clássico monitoramento de alertas só grita quando já deu ruim. Ele é importante, mas observabilidade começa antes: objetivos, sinais, alertas que fazem sentido, rastreio, logs com contexto, e um ritual de pós-incidente que gera mudança real. O mundo de SRE fala disso há anos, inclusive na ideia de SLOs e error budgets como forma prática de equilibrar velocidade e confiabilidade.

Quando essas bases existem, cloud vira uma alavanca que usamos para reduzir lead time de times sem aumentar o número de quedas, aumentar a quantidade de deploys por semana de forma segura, nos permite mexer em arquitetura sem precisar rezar. O DORA mede isso com métricas bem simples: frequência de deploy, lead time, tempo de recuperação e taxa de falha de mudança.

Agora, quando essas bases não existem, já vi times em que a cloud transforma problema pequeno em problema grande. Porque ela é muito boa em te dar liberdade. E liberdade sem maturidade vira bagunça sem controle.

Esse aprendizado end-to-end é desconfortável por definição. Ele exige que o time seja exposto ao feedback do cliente e ao comportamento real do sistema. Exige que o time aprenda a lidar com incidentes, criando um ciclo de melhoria que fica melhor a cada repetição. Quando a empresa tenta “proteger” o time dessa realidade, terceirizando operação ou escondendo produção atrás de camadas, o time vira adulto tarde demais.

O que escala, de verdade

Cloud escala times quando o time já está aprendendo do jeito certo. Ela dá ferramentas pra automatizar, padronizar, reduzir atrito e ganhar repetibilidade. Mas isso só vira vantagem quando existe clareza de responsabilidade, limites bem definidos e uma forma confiável de enxergar o que está acontecendo.

Se eu tivesse que resumir uma provocação para líderes técnicos, seria: antes de correr atrás do próximo serviço, corra atrás do ciclo. Garantir que o time coloca coisa no ar, recebe retorno, lida com problema, aprende, melhora e repete. Se esse ciclo está fraco, a cloud não vai acelerar o resultado positivo.

Cloud não compra maturidade. Cloud cobra maturidade.

TL;DR

  • Migrar para cloud não torna um time melhor automaticamente.
  • A cloud amplifica a maturidade que o time já tem: boas práticas viram velocidade; problemas viram caos.
  • O que realmente escala equipes é o ciclo completo de entregar, operar, aprender e repetir.

Marcelo Sheidt
Marcelo Sheidt
Autor verificadoAutor verificado

Senior Principal Engineer na Zallpy, Engenheiro de software com mais de 15 anos de experiência em engenharia de sistemas, arquitetura e infraestrutura, atuando na definição de visão técnica e estratégias arquiteturais para soluções complexas e de larga escala. Atualmente é Senior Principal Engineer na Zallpy, onde lidera a evolução arquitetural de múltiplos domínios, apoia executivos na tomada de decisão técnica, conduz análises de maturidade e risco, e desenvolve liderança técnica por meio de mentoria a engenheiros seniores, sempre conectando arquiteturas cloud-native, práticas modernas de DevOps e excelência em engenharia aos objetivos de negócio.

Senior Principal Engineer na Zallpy, Engenheiro de software com mais de 15 anos de experiência em engenharia de sistemas, arquitetura e infraestrutura, atuando na definição de visão técnica e estratégias arquiteturais para soluções complexas e de larga escala. Atualmente é Senior Principal Engineer na Zallpy, onde lidera a evolução arquitetural de múltiplos domínios, apoia executivos na tomada de decisão técnica, conduz análises de maturidade e risco, e desenvolve liderança técnica por meio de mentoria a engenheiros seniores, sempre conectando arquiteturas cloud-native, práticas modernas de DevOps e excelência em engenharia aos objetivos de negócio.