Por que AI Builders não vão substituir o código
Antonio Paes
Autor verificado
20 fevereiro
Tem um momento das equipes de desenvolvimento que se repete em várias empresas: alguém finalmente consegue aprovação para a migração pra cloud, fecha contrato, cria conta, escolhe Kubernetes, compra observabilidade, desenha a landing zone e etc… e espera que, por osmose, o time aumente a performance, mas a cloud não vai salvar seu time, ela vai expor ele.
A cloud amplifica o que o seu time já é. Se o time tem boa engenharia, boas práticas e um senso de responsabilidade, ela vai trazer velocidade e controle. Se o time tem buracos de governança, ownership difuso e cultura de observabilidade fraca, ela vai trazer o caos com velocidade, normalmente em dólar.
E eu não estou falando de teoria, mas sim falando do aprendizado que passei e continuo passando em diversas equipes. Alguns problemas end-to-end só aparecem quando você coloca a aplicação no ar de verdade, recebe feedback de cliente de verdade, apaga incêndios de verdade e precisa melhorar para sair da situação.
O que escala um time não é o catálogo de serviços, é o ciclo completo de entregar, operar, aprender e repetir. Esse ciclo é o que separa o time que só sobe do time que sustenta e evolui produto. É também onde a cloud cobra caro quando você tenta pular etapas.
Começa tranquilo: o deploy passa, a demo impressiona, o ambiente está rodando, o dashboard tem gráfico. Aí vem o primeiro atrito real: latência diferente em produção, comportamento estranho por carga, permissão mal desenhada, custo subindo porque alguém ligou autoscaling como se fosse mágica, ou aquele incidente que ninguém sabe explicar porque não existe rastro confiável. Nessa hora, não adianta o fornecedor, não adianta a ferramenta, não adianta o slide, porquê quem precisa aparecer é o time.
E é aqui que entram os três pilares que mais levo para minhas equipes amadurecerem, se destacarem e realmente entregar valor.
Quando essas bases existem, cloud vira uma alavanca que usamos para reduzir lead time de times sem aumentar o número de quedas, aumentar a quantidade de deploys por semana de forma segura, nos permite mexer em arquitetura sem precisar rezar. O DORA mede isso com métricas bem simples: frequência de deploy, lead time, tempo de recuperação e taxa de falha de mudança.
Agora, quando essas bases não existem, já vi times em que a cloud transforma problema pequeno em problema grande. Porque ela é muito boa em te dar liberdade. E liberdade sem maturidade vira bagunça sem controle.
Esse aprendizado end-to-end é desconfortável por definição. Ele exige que o time seja exposto ao feedback do cliente e ao comportamento real do sistema. Exige que o time aprenda a lidar com incidentes, criando um ciclo de melhoria que fica melhor a cada repetição. Quando a empresa tenta “proteger” o time dessa realidade, terceirizando operação ou escondendo produção atrás de camadas, o time vira adulto tarde demais.
Cloud escala times quando o time já está aprendendo do jeito certo. Ela dá ferramentas pra automatizar, padronizar, reduzir atrito e ganhar repetibilidade. Mas isso só vira vantagem quando existe clareza de responsabilidade, limites bem definidos e uma forma confiável de enxergar o que está acontecendo.
Se eu tivesse que resumir uma provocação para líderes técnicos, seria: antes de correr atrás do próximo serviço, corra atrás do ciclo. Garantir que o time coloca coisa no ar, recebe retorno, lida com problema, aprende, melhora e repete. Se esse ciclo está fraco, a cloud não vai acelerar o resultado positivo.
Cloud não compra maturidade. Cloud cobra maturidade.
TL;DR