Por que AI Builders não vão substituir o código
Antonio Paes
Autor verificado
20 fevereiro
A IA tornou muito mais fácil criar algo que parece profundo. Um pitch bem escrito, uma POC rodando, um diagrama de arquitetura com termos corretos, um plano de execução com etapas “certas”. Em poucas horas, alguém consegue produzir materiais que antes exigiam repertório e vivência real.
Isso não é um ataque à IA. IA é ferramenta, e ferramenta boa melhora produtividade. O problema é outro. Ficou barato parecer competente, e na engenharia de software uma decisão errada continua cara. Cara em retrabalho, cara em bugs recorrentes, cara em instabilidade e cara na confiança entre áreas / empresas.
O que mudou não foi só a forma de construir soluções. Mudou a forma de vendê-las. E muita organização ainda toma decisão como se pitch convincente fosse evidência de sustentação.
Durante anos, o maior risco era não conseguir construir. Hoje, em muitos cenários, o risco é o contrário. Conseguir apresentar com excelência sem ter domínio suficiente para sustentar a entrega.
A IA produz torna a narrativa coerente. Ela organiza raciocínio. Ela dá vocabulário. Ela deixa o discurso confiante. Só que isso pode criar um efeito perigoso: A empresa começa a confundir clareza com verdade. Começa a confundir POC com viabilidade. Começa a confundir arquitetura diagramada com arquitetura que resolve problemas reais.
Quem vive software sabe onde a conta chega. Ela chega no “e quando dá errado?”, nas exceções do domínio, nas integrações com sistemas existentes, nos requisitos de auditoria e rastreabilidade, nos limites de escala, no custo de operação. Esse é o ponto central.
A IA não cria domínio. Ela cria aparência de domínio.
E, quando o processo de decisão não separa as duas coisas, ele vira vulnerável ao pitch.
Decisões ruins raramente doem no primeiro dia. No começo, parecem vitória. O custo aparece semanas depois, quando o time tenta transformar uma ideia convincente em algo que sobreviva ao mundo real.
Aí surgem atrasos porque a integração não era “só uma API”. Surgem bugs que voltam com nomes diferentes, porque o domínio foi simplificado demais. Surge fricção entre produto, engenharia, QA e operação, porque a promessa virou obrigação. Surge instabilidade, porque ninguém pensou em observabilidade, incidentes e responsabilidade operacional. Com o tempo, o estrago maior aparece. A organização aprende a lição errada. “Essas iniciativas nunca viram produto.” O negócio perde confiança.
A cultura passa a tratar inovação e mudança como perda de tempo.
É por isso que o problema não é apenas “uma solução ruim”. É a soma de várias decisões ruins que lentamente quebram a confiança e a velocidade real da empresa.
A saída não é desconfiar de tudo. A saída é evoluir o filtro. Se a IA acelerou a criação de propostas, a empresa precisa acelerar a capacidade de separar apresentação de algo realmente sustentável a médio e longo prazo.
O ajuste mais efetivo é adicionar uma etapa curta e explícita que quase ninguém formaliza hoje. Validação de domínio / expertise. Não é uma etapa para avaliar a POC. É uma etapa para avaliar se existe conhecimento real por trás do pitch.
Antes de investir tempo e dinheiro, a gente faz uma revisão se a solução do PPT para de pé. É quase um “tá, legal, mas e na prática?”. É uma conversa objetiva para validar o que normalmente não aparece no pitch: os casos fora do padrão, as escolhas e limitações assumidas, o impacto nas integrações e o que muda quando isso sai do piloto e vira rotina.”
Você pergunta coisas que uma apresentação bonita não responde sozinha:
A pessoa pode até usar IA para se preparar, e isso é ótimo. Só que, quando não existe domínio real, as respostas viram frases genéricas e começam a se contradizer assim que você pede um exemplo concreto ou aprofunda um pouco.
Esse tipo de validação leva pouco tempo e elimina uma quantidade enorme de iniciativas que só tinham aparência. E, mais importante, protege as boas iniciativas, porque elas não precisam competir contra brilho de slide. Elas competem em sustentação.
A IA aumentou a capacidade de vender ideias. Agora, para manter a empresa saudável, precisamos aumentar a capacidade de decidir bem. Na engenharia de software, a diferença entre sucesso e frustração quase sempre está em uma pergunta simples. Isso para de pé quando encontra a realidade?