Por que equipes maduras rejeitam métodos ágeis?
Filipe Mittmann
Autor verificado
16 abril
Tem sido muito comum, em diagnósticos que realizo de Quality Assurance em projetos de desenvolvimento de software, encontrar um cardápio de processos executados mas não consolidados. E esta diferença entre o que já é rotina corporativa versus o que é mera experimentação (ou daquilo que depende de um certo voluntarismo, ou mesmo daquilo que depende de pré-requisitos que não foram implementados), esta diferença traduz-se em um gap de maturidade mascarado. Esse gap escondido deve vir à luz do sol o quanto antes, sob pena de absorver, tal qual um buraco negro, até os processos que já estavam consolidados (no papel, parece evolução; na prática, é fragilidade).
Estou falando, por exemplo, de análises de causa-raiz feitas sem um devido processo de gestão de defeitos; de frameworks de automação construídos sem análise de risco — ou sem governança e manutenção —; ou, ainda, de testes exploratórios complexos feitos com base em conhecimento de domínio não-documentado (o clássico caso que, no limite, pode ser exemplificado pelo caos que passa a reinar em um projeto quando um QA com alto conhecimento do projeto/negócio deixa a equipe sem ter documentado suas práticas).
Em todos esses casos, o problema não é falta de técnica, é falta de modelo: o ISTQB prevê model-based testing em seus syllabus de Test Management; eu quero aqui propor a extensão desse conceito a um model-based Quality Assurance framework, em que todos os processos e ferramentas sejam construídos a partir de um modelo de maturidade.
Na verdade, já tenho implementado essa abordagem há algum tempo, trabalhando com modelos de maturidade que distinguem o executado do consolidado e que podem, inclusive, apontar que um processo “avançado” pode ser mais danoso do que sua ausência. Na prática, um processo não consolidado de alta visibilidade (por exemplo, utilização de ferramenta ou tecnologia de ponta) mas de pouca efetividade (por falta de governança ou de camadas que são pré-requisito) pode comprometer processos já consolidados, ao “desviar” recursos/energias por conta da visibilidade.
Existe uma razão de maturidade ser uma escada. É preciso primeiro consolidar o básico, para, só depois, avançar para ações mais complexas; executar sem base ou na “empolgação” aumenta o custo de Qualidade. E isso significa prazos perdidos, exposição regulatória, normativa e legal, além de, é claro, perda de reputação.